por Leandro Fernandes
Técnicas de gestão importadas, aplicadas sem filtro nos países latino-americanos, prejudicam o desempenho das empresas locais. Criam nos colaboradores uma reação de resistência a essas práticas não condizentes com a sua cultura. É o que constata o economista e professor do Ibmec São Paulo, Alfredo Behrens, em seu livro Cultura e Administração nas Américas Perspectivas e Tendências.
Segundo ele, esses modelos cujas práticas derivam da observação de pessoas que não são latino-americanas influencia maciçamente as empresas brasileiras e multinacionais instaladas aqui. Logo, estamos sendo administrados como estrangeiros em nossa própria terra , diz Behrens.
Em entrevista ao CanalRh, Berhens fala das peculiaridades da cultura latino-americana, aponta quais dessas diferenças estão sendo negligenciadas por empresas que administram a la americana e ainda critica o uso indiscriminado do benchmark.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:
Canalrh: Até que ponto os estilos de gestão estadunidense e europeu influenciam a forma de administrar das empresas brasileiras?
Alfredo Behrens: É difícil medir o tamanho dessa influência. Mas sabe-se que ela é muito grande. Isso porque os americanos e os europeus foram os primeiros a se aprofundar no estudo das técnicas de administração. Quando os brasileiros foram implementar tais técnicas em suas empresas, só tinham a eles como referência. Logo, estamos sendo administrados como estrangeiros em nossa própria terra.
CanalRh: Essa influência é negativa?
Behrens: Se administrar é uma técnica, ela precisa ser adaptada. Povos diferentes não respondem da mesma forma aos mesmos estímulos. Portanto, aplicar essas técnicas sem observar as diferenças culturais entre eles é um erro.
CanalRh: Quais são essas diferenças?
Behrens: O povo latino-americano tende a ver o líder como um pai, o que o torna afeito ao paternalismo. Isso é reflexo da história do continente, que teve como governantes os populistas Getúlio Vargas e Juan Domingo Perón. Até o Lula pode ser considerado um líder assim, em certa medida. Entretanto, o que as escolas e administração da América Latina (influenciadas pelos manuais americanos e europeus) ensinam, é que o paternalismo é algo ruim. Daí então, quando esse profissional entra numa empresa administrada pelos moldes americanos, ele encontra uma relação impessoal, onde a empresa compra a sua mão-de-obra, e isso não faz muito sentido para ele.
Essa relação puramente comercial impede que as empresas entendam certas necessidades do funcionário. Como a necessidade de sair cedo para levar a mãe ao médico, por exemplo. A relação do americano com seus pais é muito diferente. Eles saem de casa muito cedo, já na época da faculdade. Diferente daqui. Mas, como importamos os modelos deles
CanalRh: Que outros erros as empresas cometem nesse sentido?
Behrens: O americano é um profissional mais individualista, que gosta de destacar qual o seu papel dentro da equipe, o que torna mais fácil de identificar seu desempenho de maneira individual. Se uma empresa manda uma equipe de dez americanos para executar uma tarefa, ao fim do processo você saberá o que cada um fez. O mesmo não acontece entre brasileiros. A equipe brasileira se blinda diante do chefe. Mesmo quem estiver à frente do grupo fará de tudo para preservá-lo do crivo do administrador. Logo, a relação da liderança com uma equipe brasileira tem que ser diferente, se ela quiser obter melhores resultados.
Outra prática tipicamente americana é a adoção de canais de denúncia anônimas como mecanismo de controle, o que não funciona bem no Brasil, porque o profissional daqui vê esse mecanismo com um incentivo à covardia no ambiente de trabalho e repudia a idéia de denunciar um colega.
CanalRh: Que impactos tudo isso traz para as empresas brasileiras?
Behrens: O povo latino-americano é maravilhoso, mas está sendo driblado por técnicas que não fazem sentido para eles. Por líderes estrangeiros ou que agem como se fossem que não sabem lidar com eles. Somos ricos em seiva criativa, que é fundamental para a inovação. Mas, quando uma empresa procura um líder, ela busca alguém que se pareça com um americano, ou seja, que tenha a mente voltada para o controle, quando na verdade deveriam procurar um líder com cabeça de artista, que vá levar a empresa a dar um passo à frente. O resultado é um líder que não empolga. Um travesti de líder.
CanalRh: A malandragem, mais conhecida como jeitinho brasileiro seria reflexo dessa forma importada de administrar?
Behrens: Em certa medida sim. Essa malandragem é um mecanismo de defesa a um regime repressor. São atitudes evasivas que vêm em resposta ao abuso de poder, seja por parte das autoridades públicas, seja por parte do chefe. Os modelos europeus e americanos são marcados por apresentarem sistemas hierárquicos rígidos, que pressionam quem está na ponta. Isso cria um ambiente hostil e desencadeia uma série de comportamentos nocivos para a empresa.
CanalRh: Podemos entender que o senhor é contra o tão usado benchmark?
Behrens: O Benchmark é, para mim, o refúgio da incompetência. É impossível ser melhor que o melhor em seu ramo de atuação se você copia. Uma empresa se diferencia por inovar, não por copiar. É uma prática que só deve ser usada para se saber o que está sendo feito no mercado. Agora, quem criará as práticas terá de ser a empresa.
CanalRh: É possível então administrar de forma tipicamente brasileira e ainda obter bons resultados?
Behrens: Claro. As empresas brasileiras de maior destaque no mundo, como a Embraer e a Petrobrás, são estatais e têm em sua essência a brasilidade. Mas ainda não existe um arcabouço de técnicas genuinamente brasileiras. Para tanto, é preciso investir mais em pesquisa. Precisamos observar como se dão as relações de trabalho em organizações que ainda não sofreram muito com essas influências estrangeiras como clubes de futebol e empresas de transporte de passageiros.
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